quarta-feira, 24 de maio de 2017

A saga do vestido e o lindo sim

No último Natal, fomos convidados para ser padrinhos de casamento de Binho, amigo de Guga das antigas. O pedido, fofo, feito com uma lousinha que ainda guardo e chocolates, que duraram poucos minutos.
Pouco tempo depois, Nau, a noiva, me passou detalhes da cerimônia: casamento à beira da praia, madrinhas vestindo longo na cor salmão... Peraí - salmão? Sim, essa cor, que já foi uma das minhas favoritas na juventude, voltou à minha vida por conta desse casamento tão especial.
Até pensei em procurar um vestido em Sampa, já que ia para lá, mas não deu tempo. Achei que ia ser muito fácil encontrar por aqui, e quando Nau me perguntou se estava tudo em ordem, eu respondi, sem nenhuma dúvida, que "sim, claro". Depois ela me contou que eu fui a única madrinha a responder isso, que estavam todas à beira do pânico.
Bueno, quando fui a Salvador em missão especial para comprar ou alugar o vestido, vi que não seria tão simples assim. Salmão definitivamente não integra a cartela de cores deste outono/inverno. Também não estava nas lojas de aluguel de vestido, caríssimas, aliás. Quando soube o preço do aluguel, resolvi comprar um - também porque não conseguia me imaginar dentro de um daqueles vestidos oferecidos nas lojas de trajes de festa, com pedraria pesada, rebuscadíssimos.
A ideia de usar um vestido salmonamente fluido, de preferência de musseline, foi sendo abandonada à medida que eu me deslocava de táxi pelos vários bairros soteropolitanos. O comprimento era outro senão. Quando havia a cor em um modelo mais descolado, o vestido era muito curto. Se pudesse ser estampado, facilitaria. Mas não podia.
Acabei encontrando algo com a minha cara numa loja da Farm. Um vestido rendado, romântico, num tom mais escuro, entre o coral e o rosa sândalo, e que precisaria de uma combinação como forro. Mesmo assim, não completamente convencida (e talvez porque goste de uma epopeia), ainda fui buscar outras opções. Quando decidi voltar ao tal vestido, procurei na Farm de outro shopping, e não havia lá o modelo. Tive de voltar ao primeiro shopping - uma outra vendedora me atendeu, e ela não sabia a qual vestido eu me referia. Disse a ela para procurar no depósito. Ela voltou com um modelo nada a ver, branco. Olhei pra ela, espantada - parecia uma pegadinha. Por fim, ela encontrou o modelo, e eu o agarrei para não soltar mais. Dois dias depois, enquanto Guga buscava seu modelito praiano (muuuuuuito mais simples, camisa branca e calça cáqui), eu ainda iria atrás de uma combinação em cor neutra, já que o vestido vinha apenas com uma de malha, "salmão" e curtinha.
Afinal, chegou o dia. Que não foi completamente tranquilo, pois tivemos de correr para a veterinária com Cong, acometido de piodermite bacteriana. Depois de sermos esfolados monetariamente, fomos nos preparar para o casório, torcendo para que não chovesse.
E foi tudo lindo. Os noivos, felicíssimos. Os padrinhos, alegres, aproveitando para se rever após muito tempo. Ouvi elogios à minha elegância (afinal, estamos sempre muito à vontade, e o vestido é mesmo um chuchu).
Ao final da saga, pude ouvir o sonoro sim de Binho e Nau. Testemunhar a emoção geral, fazer parte de toda aquela lindeza, do alto dos meus sapatos e do meu vestido quase salmão. O que, sem dúvida nenhuma, valeu toda a aventura.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

De dias mágicos e estrelas

No final de 2015, pouco depois da minha mudança para cá, eu e Guga fomos convidados para um churrasco na casa de dois velhos amigos dele, Patrícia e Ricardo. Pati tinha sido vizinha dele, era amiga da época dos 20 e poucos anos.
Cheguei cuidadosa, afinal, eram amigos muito queridos de Guga que eu ainda não conhecia. Mas, assim que avistei Pati, gostei dela instantaneamente. Assim, sem mais. O sorrisão largo, os olhos luminosos, os gestos cheios de energia. E Ricardo, de fala tranquila e doce: seu companheiro pra todas as horas, estava na cara. Os dois acarinhando a filha, Cassiana. Por mim, desde aquele momento, seríamos amigos para sempre.
O segundo encontro, um dia mágico, seria aqui em casa. Depois de um churrasco capitaneado, como sempre, por Rodrigo, montamos a bateria de Pati no meio da sala, com as portas escancaradas. Ela tinha começado a fazer aulas e estava concentradíssima, só deixando as baquetas para que Rodrigo tocasse também. Não largava o microfone, emendando um rock após o outro. Feliz. Avançamos noite adentro cantando, tocando. Imaginando que haveria muitos encontros como aquele.
Perto do aniversário de Guga, soubemos que ela faria uma cirurgia delicada. Depois, a confirmação da doença. Tudo muito rápido, muito injusto. Por que uma pessoa como ela?
Fomos nos despedir esta semana. Ela havia feito aniversário no dia 20, tentei ligar, mas ninguém atendeu. Ela já estava no hospital. Deve ter sido um alívio para ela, a partida. Nós ficamos com a dor do vazio, que, esperamos, logo dê lugar à saudade. Mas ficamos também com a lembrança de sua alegria e força, sua paixão pela música, o cuidado com as pessoas queridas. Isso é muito mais, isso é o que faz estar junto valer tanto a pena. O amor e a amizade brilhando como estrelas, maiores que a própria morte.

domingo, 23 de abril de 2017

Pão delícia, um clássico soteropolitano


Já nas primeiras vezes que vim a Salvador com meu marido, na época namorado, ele me falava do tal pão delícia, uma iguaria que não podia faltar em nenhuma festa soteropolitana. Eu nunca tinha visto nem provado o tal pão, e confesso que, nas primeiras vezes, não vi nenhuma graça - normalmente, comprávamos em padarias, e eu não entendia por que ele era considerado tão gostoso. Achava que tinha gosto de massa crua ou então era muito duro.
Agora entendo que os pãezinhos que comprávamos nas padarias e até um que provamos num restaurante baiano em São Paulo eram muito diferentes do pão delícia tornado célebre por Elíbia Portela, uma culinarista e banqueteira de Salvador. Não faz muito tempo que comi um pão delícia de fato delicioso, num café de shopping, com o creme de queijo tão enfatizado por Guga, e minha opinião começou a mudar. E também acabei encontrando Elíbia no Facebook e comecei a seguir suas publicações.
Outro dia, vi que ela daria um curso só de pão delícia. Entrei em contato, paguei o curso e descobri que o anúncio era antigo, que o próximo seria numa data inviável pra mim. A partir de então, fiquei à espera de que se formasse uma turma em abril. Foi uma epopeia a troca de mensagens com Elíbia - ela não costuma responder aos posts no Facebook, demora um tanto a responder emails. Decidi aderir ao whatsapp só para poder falar com ela. Na última vez que liguei para ela, soube que o celular tinha se espatifado no chão e que ela estava sem acesso ao aplicativo. Ela resolveu anunciar novas turmas no Facebook, e eu de novo entrei em contato de todas as formas imagináveis. Por fim, ela me enviou uma mensagem confirmando minha inscrição numa turma no último sábado.
Éramos seis pessoas em torno de uma bancada de cozinha na casa dela, no bairro da Pituba. Ela não perguntou o nome de ninguém, nem de onde vínhamos, o que queríamos. Foi logo explicando como separar gemas, pedindo ao único rapaz do grupo para pesar farinha, fermento, leite em pó. A apostila do curso era uma folha de papel sulfite com a receita (um pouco incompleta) do pão delícia. Aos poucos, ela foi ficando mais à vontade, dando dicas importantes (cobrir os pães com pano de prato para não murcharem, untar forma com óleo para não queimar os pães etc.), contando causos de sua longa carreira de culinarista. Eu perguntei bastante, pra variar; fiquei ao lado dela na hora de modelar os pães, caprichei no boleamento, anotei muito.
Hoje resolvi fazer os pãezinhos. Na hora de modelar, achei a massa muito grudenta para pesar e executar o passo a passo que Elíbia ensinou, entonces, tirei porções com colher, a olho, e boleei com a mão em concha mesmo. Ficou tudo bem redondinho. Ainda um pouco dourados (pão delícia típico é bem clarinho), os pães, porém, ficaram ótimos. O creme de queijo saiu um pouco mais intenso, porque usei um queijo "bom", mas a família aprovou.

domingo, 16 de abril de 2017

Fazer o melhor é fazer o impossível?

Já começo respondendo: não. Muitas vezes, fazer o impossível significa que alguma coisa não foi feita como deveria e sobrou para alguém se virar nos trinta para que algo tenha êxito. Normalmente, isso diz respeito a trabalho, mas pode servir para relacionamentos em geral.
As pessoas se acostumam muito rápido a ter alguém que faça o impossível, que resolva os problemas todos, que assuma toda a responsabilidade. E quem assume esse papel não está fazendo o seu melhor - está deixando de fazer bem feito e com prazer para cumprir uma meta que não necessariamente leva em conta a qualidade do que é feito.
O fato é que muita gente ainda associa respeito a dificuldade - quanto mais você exige, dificulta, tergiversa, mais essas pessoas te respeitam. Se você simplesmente arregaça as mangas e faz, logo sentirá no lombo o peso de uma galera que montou nas suas costas.
Por isso, aconselho, em pleno domingo de Páscoa: faça o melhor que puder, mas não faça tudo. Para tudo há muita gente no mundo.

sábado, 15 de abril de 2017

Páscoa sem ovo de chocolate


Desta vez, não compramos ovos de Páscoa. Como o almoço será na casa da sogra, resolvi fazer a sobremesa, com chocolate.
Segui uma receita do Richie d'A Cozinha Coletiva, mas sobrou muito creme de maracujá, e acabei montando uma torta de maracujá além da de chocolate com maracujá. Talvez a forma que ele usou seja mais funda.
Ainda fiz duas tarteletes de ganache de chocolate com morango, usando o leite condensado caseiro à base de leite Ninho (receita do Prato Fundo) - bati a bolacha maisena com um punhado de avelãs, e ficou maravilhoso (usei cerca de 60 g de chocolate meio amargo, 80 mL de creme de leite e 50 mL de leite condensado caseiro, além de 70 g de biscoito maisena e uns 60 g de manteiga derretida).

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Mais acessórios de bike e questões de gênero

Depois que a gente começa a comprar acessórios para pedalar, é difícil parar. Já estou pensando agora em outra bike, mais maciça que LaBelle, com aro maior e tal. Mas, por enquanto, parei na sapatilha - que resolvi comprar depois de ter o cadarço do tênis enrolado no pedivela enquanto voltava da Praia do Forte, um perigo!
Comprei o par de sapatilhas da Spiuk, que veste como uma luva. No começo, a lingueta incomodou um pouco, mas o ajuste no pedivela (ainda sem clip), mesmo com menor área de contato que um tênis, foi rápido.
No mesmo dia da aquisição da sapatilha, toda animada com os insumos ciclísticos, resolvi comprar uma revista Bicicleta, edição do "mês das mulheres" e tive a maior decepção. Uma chamada na capa, "O lado rosa da força" (que, por si, eu sei, já é questionável), levava a uma matéria ridícula, lamentável, escrita pelo editor da revista, sobre as namoradas dos ciclistas que "lavam suas roupas embarradas", aguentam seu mau humor, correm atrás deles com garrafinhas de água ou carboidratos, sempre no papel secundário de torcedoras. Essas mulheres conformadas e subalternas ainda viam sua vida "mudar completamente", imagino que milagrosamente, depois que tinham conhecido seus respectivos senhores, digo, namorados.
A outra matéria da revista supostamente voltada para o público feminino falava do coletivo La Frida, de Salvador. Quer dizer, não esclarece quase nada sobre o papel das meninas, louvando o misterioso projeto (porque, a depender da matéria, ele permanece um mistério) numa linguagem pseudopoética - nem fornece endereço ou telefone de contato ou site, nada que permita saber mais sobre seu trabalho. Uma lástima, mesmo tendo sido escrita por uma mulher.
Em suma, essa revista, que não voltarei a comprar (até a matéria sobre cicloturismo é tosca, um mero relato também pseudoliterário de um fulano que pedalou pelos Andes, sem nenhuma dica útil), perdeu uma ótima oportunidade de se colocar positivamente em um debate contemporâneo urgente, e, no lugar de mostrar as barreiras que as mulheres têm vencido inclusive no mundo dos esportes, mais lembrou uma daquelas revistas femininas da década de 1950 que ensinavam boas maneiras às moças "de bem", certamente belas, recatadas e do lar. Triste, triste. 

terça-feira, 11 de abril de 2017

Coisas caseiras e estranhas

Esta semana estou toda árabe - fiz quibe de forno, arroz marroquino e homus com tahini caseiro (gergelim tostado com azeite; acrescentei um pouco de óleo de gergelim também). Eu adoro aprender a fazer as versões caseiras dos ingredientes, especialmente os mais raros de encontrar (hoje vi também uma receita de mascarpone caseiro, mas aqui também é difícil achar o creme de leite fresco pedido na receita, entonces...).
No caso do tahini, porém, como só tinha gergelim preto, a massa ficou preta como caviar e o homus ficou CINZA. Aí é que nos damos conta, diante desse tom de muro paulistano, da importância da cor, da aparência da comida...

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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