segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

"The Help": ensinando a compaixão

Um dia desses, finalmente assisti ao filme Histórias cruzadas. O título original é The Help, que parece dar mais conta do seu sentido profundo, não só do imediato. Não é só uma história sobre histórias que se cruzam, mas uma história de alguém que, ao ouvir os relatos e dramas de uma porção de mulheres subjugadas pelo preconceito racial e portanto econômico, sai, mesmo sem pretender tanto, em seu socorro. "Help" tanto pode se referir a isso, ao socorro, à ajuda, mas também à própria condição daquelas mulheres, de "ajudantes" - no caso, os verdadeiros e não reconhecidos braços direitos dos brancos ricos norte-americanos.
Esse filme é lindo e necessário, porque mostra o encontro transformador de duas realidades que confrontam as convenções, a da moça branca que deseja ser livre dessas convenções e a das mulheres negras que são alijadas de sua liberdade. E me fez pensar muito no sentido da compaixão como um sentimento que engendra a libertação - quem se compadece ajuda o outro a se libertar, e não a se entronizar como coitadinho. Assim é com a empregada que repete, como um mantra, para a pequena filha de sua patroa: "You're kind, you're smart, you're important". Porque percebe o desamor que cerca a criança, e em lugar de vê-la como sua futura opressora planta a semente da compaixão, mesmo não vendo saída para si própria. O socorro está aí também, nessa medida simples e essencial.
Compaixão, portanto, não tem a ver com lógica, com razão. É puro sentimento, é só um estar junto, saber que a ferida do outro dói, ponto. Às vezes é só disso que precisamos, por instantes - não é a solução para um problema cuja resposta já sabemos, mas é uma espécie de bálsamo para que, feridos, ainda consigamos correr alguns metros em direção à saída, à libertação.

Tessituras

No filme Eu maior, a Monja Coen fala de quando conseguiu ver sua vida como uma tapeçaria até aquele momento, e como percebeu o quão era responsável pela sua tessitura contínua dali em diante. Eu gosto muito da imagem do tecer, especialmente porque ela remete à ideia de ligação, relação, como bem lembrou minha amiga Cely, referindo-se aos galos tecendo as manhãs nossas e de João Cabral (e por isso gostei tanto de um texto na Revista Bula sobre os galos que acordam coisas dentro de nós, clara e bela referência ao mestre pernambucano).
As tessituras me encantam e entontecem - são parte dos milagres diários pra mim, sincronicidades segundo a psicologia analítica. Hoje, ao ouvir e curtir uma música (o post anterior, "Soltarlo", da colombiana Claudia Gómez) que o Josafá Crisóstomo também curtiu, da newsletter de outro blogueiro que adoro, o Alessandro Martins, este me convidou a assinar a newsletter; quando aceitei, veio a sugestão de eu ler um livro de uma parceira dele, Paula Abreu. Escolha sua vida, era o título desafiador.
Como ando topando desafios e querendo conhecer histórias motivacionais, topei. E gostei muito. Me identifiquei bastante com a experiência da autora, e li frases que andei dizendo pra quem quisesse ouvir nos últimos tempos, sobre a resposta do universo (não postei aqui, outro dia, sobre minha mudança, trabalhos novos e tal?), liberdade, consciência e responsabilidade. O livro da Paula não é simples autoajuda, é um depoimento (não um guia) de como ela mudou sua própria vida, quando teve um clique num momento crítico. Bom seria se a gente tivesse o tal clique antes de a coisa ficar feia, quando já tivesse dado ouvidos aos primeiros sinais da intuição. Mas é difícil não ceder aos costumes arraigados, ao comodismo e à dúvida cruel: será que mereço, será que consigo, será que posso?
Eu gostei sobretudo de saber que não sou uma maluca sozinha no mundo, como tantas vezes querem me fazer crer. Não que considere os outros modos de viver errados, longe disso, mas o meu é ideal para mim. Do mesmo modo que não julgo quem fume unzinho pra se divertir, quero não ser julgada por não ter necessidade de fumar unzinho pra isso. E mesmo procurando ser tolerante com as verdades alheias sei bem como é ser acusada de ser a dona da verdade - eu sou sim: da minha verdade, da que me cabe, onde cabe minha alma, e que pode inclusive mudar a qualquer momento, junto comigo (e OK, estou aprendendo a não querer resolver as coisas pelos outros, já vi que não ajuda nada). Quando alguém muda, incomoda os que não querem mudar, como se fossem alvo de uma acusação. Mas, como diz a autora, "não é você, sou eu".
Já cheguei a pensar que estava errada por não ter apenas um único objetivo na vida ou "o" lugar no mundo, por gostar de tantas coisas, por querer ver tantos lugares, por não querer ter um carrão, por privilegiar o tempo presente, por no fundo querer uma vida mais simples, criativa. Aí a Paula disse algo de que também gostei: sobre os espíritos renascentistas. Segundo ela, nenhum problema em ser assim, mas ter mais foco é bom para ser mais feliz (não para agradar os outros). E isso me fez pensar em coisas que já havia dito sobre a liberdade, inclusive reafirmando-as:
1. ser livre é exercer o ser quem você é, independentemente das convenções alheias
2. para ser livre é preciso ser muito responsável, porque liberdade pressupõe escolhas
3. quem é livre é, portanto, naturalmente sério, mas não sisudo - por que seria, se liberdade traz contentamento?
4. aliás, seriedade nunca foi sinônimo de sisudez
5. ser livre de fato é ser, não estar - não vamos confundir liberdade pessoal e plena com eventos esporádicos (tipo tirar a desforra, literalmente ser alforriado de vez em quando por um feitor invisível, em meio a uma vida infeliz)
6. ser livre não quer dizer ser feliz sempre, até porque a felicidade, essa sim, é episódica - mas dificilmente uma pessoa não livre é feliz de fato

A descoberta desse livro por mim e para mim se soma à do site da Gisela Rao, sobre autoconhecimento e autoestima, ótimo, divertido, recomendado pela minha amiga Marisa. Tanto a Gisela quanto a Paula se entrelaçam na tarefa que realizam com prazer de ajudar os outros, e de serem gratas por terem sido ajudadas por umas tantas pessoas no caminho. Tudo porque ambas se colocaram em movimento na direção da transformação pessoal, que levou em conta a essência de cada uma, as idiossincrasias e medos a vencer de cada uma.
E é assim. Cada pessoa tece sua vida, sua manhã, mas volta e meia reconhecemos na nossa tapeçaria um pontinho, um presente deixado por um passante-bordador-da-própria-vida. E a cantoria dos galos cresce, e cresce, uma lindeza.



Outro dia fiz este diagrama pra entender as mil percepções que estava tendo. Não é que começou a desenrolar a maçaroca?

domingo, 29 de dezembro de 2013

"Soltarlo", Claudia Gómez



Soltarlo, dejarlo ir
Que vuele
Que encuentre su propia voz
Ya no me pertenece a mí
Yo se lo dejo a él
Soltarlo al aire dejar salir
Del pecho este sentimiento
Que en mi murió
Yo ya vi mi sol nacer
Y hoy vuelve a amanecer
Volver a comenzar en la vida
Mirando un cielo azul
Con fe y con mi poder
Con todo el corazón
Llevando esta canción por la vida

Mudar não é bolinho

Eu gosto de mudança, não só a essencial, da alma, pessoal, mas também a física, geográfica. Não sei como fiquei tanto tempo num lugar que nem é meu. Na verdade, sei: me acomodei, e fui ficando, mesmo quando não me sentia mais feliz aqui. Embora gostando tanto da cidade, e do centro, já estava há uns anos meio sufocada pelo concreto. Foi preciso começarem uma obra nos fundos (e mais umas tantas coisas) para eu me mexer de verdade. Esse, na verdade, é o erro: não seguir o que diz a alma, ir arrumando um jeitinho de não ter que se mexer.
Porque mudar - em ambos os sentidos - dá muito trabalho. Agora mesmo, em meio a um calor infernal, dia sem vento nenhum, parecendo a louca das caixas (algo na linha loira do banheiro ou homem do saco) pedindo em toda parte, percebendo com quase desespero o quanto acumulei de coisas nesses anos (mesmo coisas ótimas, como livros - eles parecem não ter fim, não há caixa que dê conta de tantos!), vejo minha ansiedade pelo novo ceder um pouco de espaço para o cansaço antecipado das providências a tomar. Pra incrementar o quadro, tem o feriado prolongado, e alguns lugares aonde eu precisava ir não abriram. (Acho que não gosto muito dos feriados - nunca tinha pensado nisso, sei que são ótimos em algumas situações, principalmente quando se trabalha em uma empresa, cumprindo horário fechado todo dia, mas pelo menos nos últimos tempos eles mais me atrapalham que ajudam. Eu prefiro, aliás, viajar fora de feriados, até para evitar as multidões, os maus serviços e os preços altos. Enfim...)
Desanima também ir tirar as medidas do apê novo e ver que nem começaram a pintura. Porque a semana encurtada pelo feriado vai exigir que eu equilibre pratos, pra variar, entre mudança e trabalho, e todas as providências imediatas que dependem de uma e interferem no outro.
Bom, no meio desse lacrimório, fiz algo que há anos não fazia, desde o colégio: desenhei a planta do apê. Toscamente, claro, mas lembrei, usando o velho e detonado escalímetro e o esquadro de 60 graus e a pranchetinha com régua paralela que comprei para fazer revisão de texto (algo premonitório!), da minha vida de estudante de Edificações. Algo que não tem mais nada a ver comigo, e ao mesmo tempo fala tanto sobre mim. Eu, que sempre gostei do assunto casa - planejar, proteger, aconchegar, receber -, vejo como ele nunca me abandonou. Hoje, acrescido do sentido de autoconhecimento que a metáfora da casa traz consigo.
Por isso mudar (a casa-alma ou de residência) é tão difícil - pressupõe desapegos, expurgos. Perceber o peso do acúmulo, e então ter que fazer escolhas, para caminhar com mais leveza. O próprio preço da liberdade.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

sábado, 21 de dezembro de 2013

Sonho meu

Hoje, na Liberdade, eu e minha amiga Lu paramos para ouvir um senhor que tocava violino numa esquina. Ele tocou, atendendo ao meu pedido, o último trecho da 9a Sinfonia de Beethoven, que sempre me leva às lágrimas. Quando acompanhada do coro, essa parte é mais conhecida como "Ode à alegria", devido ao poema musicado de Schiller. Me emocionei com a música, claro, e também com a simpatia do seu Sérgio, o violinista. No final, quando nos despedimos, ele deu a cada uma um "provérbio" num papelzinho dobrado. O meu dizia isto: "Tudo cede à continuidade de um desejo enérgico: todo sonho acaba por encontrar a sua forma".
Nos últimos meses, eu tenho ficado tonta com tantas respostas que o Universo dá. Nesse caso, parece um diálogo com a frase do Eugenio Mussak que comentei aqui, de como o imaginar é o primeiro passo para a realização. No caso do provérbio do seu Sérgio, o sonho que toma forma é produto de um desejar contínuo e forte. E o que é esse desejar profundo e criador senão se pôr em movimento? Certamente não se trata de transformar o sonho numa quimera inalcançável, mas de tê-lo diante dos olhos e caminhar firme e suavemente na sua direção.
Depois de eu ter voltado a indagar da minha alma quais são os meus sonhos, de ter imaginado o que fazer para realizá-los, depois de me lançar a uma nova aventura cuja única garantia é a confiança que tenho em mim mesma, na minha humildade em recomeçar sempre, vejo as respostas imediatas da Vida/Universo/Deus, o que quiserem. Ainda temerosa de uma súbita claridade solar, decidi viajar para um lugar sempre sonhado. Depois de ter visitado 12 apartamentos, de chegar à beira da exaustão emocional, de duvidar por momentos da minha capacidade de carregar a própria vida, de sofrer com uma nostalgia do vivido no lugar onde moro há tantos anos, encontrei um outro lugar, luminoso, numa rua bonita, perto de uma área verde, e então os papéis correram com agilidade, ouvi do atual locador uma espécie de bênção quando falei da mudança ("tudo certo, querida, fique tranquila"), oportunidades de trabalho começaram a pipocar. Isso para não falar de alguns amigos maravilhosos que me ouviram (todos eles), que aconselharam (todos eles), que me acompanharam a alguns lugares (como a Lu hoje, na busca pelos chás e pelo bule na Liberdade, mas também Wagner, Marisa, Marcelo, Cláudia, Eliane, Karen etc.), que me escreveram textos lindos (Simone), que me ligaram de longe (Carlos), que algumas vezes "só" me deram um abraço apertado (todos eles, longe ou perto).
O que estava represado voltou a correr, a força das águas rompeu os diques da estagnação. A vida respondendo ao meu movimento. Se tivesse me paralisado pelo medo, só teria as mesmas paisagens cinzentas e desesperançadas. Agora tenho um mar de possibilidades à minha frente, um oceano inteiro a navegar pelo sonho que é meu. Pessoal e intransferível, feliz só por "ser" sonho, e passível, portanto, de realização.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Da série "Milagres cotidianos" IV

Me levantei de repente da mesa quando M. me lembrou do horário de encontrar a corretora de imóveis, que me esperava a algumas quadras dali. H., namorado de M., perguntou se eu queria uma carona, eu disse que não precisava, era relativamente perto, iria a pé.
Então C., amigo dos dois, que eu acabara de conhecer e que estava ali havia alguns minutos apenas, disse que me levaria lá. Perguntei: mas você vai para aquele lado? Ele disse: não, vou para o outro, mas te levo e depois volto.
Nessa hora tive um alumbramento: é isso o que é fundamental numa relação - a disposição de mudar um pouco seu trajeto para que se encontre com o do outro. Como diz aquela canção: eu só quero saber em qual rua minha vida vai encostar na sua. Na verdade, para que essas ruas, esses caminhos se toquem é preciso disposição para fazer acontecer, e não só esperar que aconteça, que o urbanismo seja favorável. 
E muito embora no dia seguinte eu tenha visto de forma insuportavelmente clara como a relação recém-finda era justamente o contrário disso (não ter havido a cessão de um milímetro sequer, um mínimo desvio para que os caminhos se encontrassem, o que resultou em dois caminhos tristemente separados, paralelos sem um infinito que os fizesse se encontrar, já que somos nós mesmos finitos), esse milagre/alumbramento/sincronicidade me fez perceber o que de fato é importante para mim. C. foi uma espécie de anjo enviado para me lembrar.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Comentário expresso

Não há texto ou desenho que dê conta quando a vontade é de gritar.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Imaginar ou se escaldar

Quando agora me assalta o temor diante do novo, penso nas escolhas que tenho que fazer. No caso atual, não tenho muita escolha: é ir em frente ou ficar parada, a ver navios. Melhor então tomar "aquele velho navio", depois de descer as ruas todas.
Nunca me assustei muito com fazer o que deve ser feito. Mas agora parece que é algo muito grandioso. Por quê? Já me mudei antes, já desamei antes, já abri mão. Não sei, é algo que cheira a grande salto, como um que nunca dei. Mesmo quando fiz coisas que pareciam muito ousadas para os outros (largar emprego quando não tinha outro em vista, começar de novo, mudar de paradigma, ir aprender algo que não tinha nenhuma relação com o momento presente, me jogar numa viagem), elas me pareciam bem normais, o caminho claro a seguir. 
Agora tem o novo logo ali na esquina, e não sei o que há atrás dele. Não quer dizer que não seja melhor do que o que tenho agora. E afinal o que tenho agora não é nada, é coisa inerte, que não dá mais frutos. Talvez eu ainda me sinta sem fôlego, depois de tanta energia longamente dispendida (e estou me sentindo inclusive fisicamente assim, extenuada). E ao mesmo tempo, como li na coluna do Eugenio Mussak, na revista Vida Simples:

Imagine, e você se arrisca a conseguir. Não imagine, conforme-se, e você estará condenado à mesmice. Imagine e organize-se para tornar a imaginação realidade, e algumas coisas fantásticas começarão a acontecer.

Sinto que as ideias que eu prego estão me colocando à prova. Vivo dizendo que o primeiro passo para o sonho se realizar é imaginar, planejar, colocar na ordem do dia. Ou então parafraseio um amigo que fala dos 50% de não que já temos garantidos na vida - por que então não arriscar o sim? Agora estou vivendo a prova dos nove, torcendo para que seja a alegria.
Suspeito que esse súbito temor vem não só porque me escaldei um pouco mais, mas porque agora tenho mais consciência do escaldamento. No entanto, o movimento da vida de que fala Mussak é naturalmente oposto à inércia. Ou seja, um gato escaldado não deve ficar no mesmo lugar, ou corre no mínimo o risco de novo escaldamento, mesmo inerte. Claro que é difícil que ele se mantenha apenas esperto, e não também traumatizado, ressabiado, receoso das mãos que o tentam tocar lá na outra esquina.
E daí creio que vem o passo seguinte, depois da consciência: sabedoria. Será uma quimera, ela também?

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Galeria de desenhos instantâneos












Bater de asas

Acho que ando com fixação por aves e seres alados.
Depois de ler outro texto lindo da Si Adami, uma continuação dada ao poema de Manuel Bandeira "Namorados" (que ela traz de jeito doce-irônico para o "mundo real"), fiz essa Morpho menelaus para a série de desenhos instantâneos. E então me lembrei de como fiquei fascinada por essa borboleta quando a vi num atlas de flora e fauna brasileiras, e como fiquei "estupidificada" diante de sua aparição ao vivo, num parque, anos depois. Grande, brilhante. Azul.
A primeira vez que ouvi falar nela foi no livro de Lúcia Machado de Almeida, O caso da borboleta Atíria, da série Vaga-Lume. Foi quando comecei a colecionar borboletas a esmo, caçando as que voejavam pelo "jardim" do prédio e aprisionando-as numa caixa de papelão. Meu avô me prometia comprar o equipamento para colecioná-las corretamente, mas isso nunca aconteceu.
Por pressão da mulherada do prédio, tive de soltar as sobreviventes (a essas alturas, todas as crianças do prédio estavam me ajudando na captura das pobres criaturas aladas). Não pensava na época que estava fazendo uma maldade - aos 9 anos, era eu quem estava aprisionada em sua beleza voejante. Agora, no meio da vida, descobri que, numa de suas representações, Psique tem um pequeno par de asas de borboleta.
E aqui um trecho do belo texto tipicamente simoniano:

Foi só então que Antônia se deu conta de que ganhara um belo par de asas azuis, que nunca haviam sido usadas. O tempo, que tantos e irreparáveis estragos causa, às vezes nos presenteia com inesperadas metamorfoses. E ela se deu conta, também, de que não precisava ficar ali parada, esperando que as coisas voltassem a ser como eram antes: ela podia voar. E voou.

De lá de cima, no espaço infinito do céu azul, avistou Manuel, cabisbaixo. Ainda acenou um adeusinho, mas ele não viu. Estava ocupado demais pra ver, procurando no rés do chão outras lagartas listradas para admirar.

E Antônia voou, e voou, e voou. Ganhou o mundo, com suas novas asas.
Antônia, a ex-lagarta.

Que vontade de voar!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

E-commerce: uma forma de fugir da bagunça urbana e poupar tempo

Este ano em especial comprei muita coisa por e-commerce. Pura preguiça de enfrentar fila, trânsito, gente louca e/ou mal-educada, estresse de modo geral. Ainda mais com tantas empresas oferecendo frete grátis, primeira troca grátis, rapidez na entrega e, principalmente, segurança na transação.
Já comprei até balde de metal pela internet. Passei por linhas de bordar (o único caso até agora em que o produto veio trocado), roupas e sapatos (estes mais perigosos - enquanto as roupas quase sempre ficam ótimas, os sapatos quase sempre têm que ser trocados, no way), livros, filmes, produtos de banho, acessórios de ginástica, até eletrodomésticos e móveis.
Para não dizer que nunca tive problemas, houve o caso de dois eletroportáteis que comprei nas Americanas (onde sempre comprei, e sempre foi ótimo, rápido, seguro, entrega OK), e ambos vieram quebrados. Foi a única vez. E fiquei indignada. A troca foi meio confusa, mas depois deu tudo certo.
Também com relação a devolução e estorno nunca tive problemas. Mas para que a compra por e-commerce seja tranquila é preciso observar algumas coisinhas:

- verifique se o site é um ambiente seguro - confira os selos de autenticidade na barra da página (por exemplo, Site Blindado, Site Seguro, E-bit, VeriSign, CertiSign, TrueSign - embora alguns possam ser hackeados...)
- é bom comprar em sites cujas lojas físicas e produtos você já conhece, não só porque, no caso de vestuário, você já conhece modelagens e padrões, mas também porque na maioria dos casos dá para ir trocar o produto na loja física, mesmo que o tenha sido adquirido no site (eu já fiz isso na Corello; aliás, no site já não havia outra numeração de sapato, e na loja sim)
- procure informações sobre o site no Reclame Aqui; mesmo que você não ache nada lá, na sua pesquisa na rede certamente aparecerão comentários em outras páginas
- faça sempre valer seus direitos de consumidor: direito a se arrepender da compra, direito a troca no caso de defeito do produto ou caso não cumpra o prometido, direito a devolução e estorno caso não haja como efetuar troca, direito à informação, direito a ser bem atendido, direito a pagar o menor valor anunciado (caso rolem aquelas mudanças "súbitas" de preço)
- como sempre acontece em Natal e Black Friday, atente para as maracutaias das lojas, que aumentam muito o preço do produto para então anunciar que ele baixou muito...
- compre só o que precisa ou algo que seja realmente imperdível (não tudo que seja imperdível)! a praticidade do e-commerce é um perigo em épocas de tristeza, carência ou quando não se tem nada melhor pra fazer
- pessoalmente, não sou muito fã do Mercado Livre, embora tenha até inscrição lá, mas, do mesmo jeito que já vi uma irmã levar calote, ele foi um meio eficaz de revender ingressos não utilizados para um show de rock
- desconfie de páginas toscas - o hábito não faz o monge, mas quando a coisa é muito de qualquer jeito e os preços de produtos naturalmente caros milagrosamente aparecem muito baixos...
- para resolver pequenas e grandes confusões, o telefone é a melhor forma - talvez porque as pessoas tenham perdido o hábito, só se comunicando por email, o telefone parece ter sido "empoderado"; no caso de uma ponta de estoque ótima, em que ninguém respondia ao "Fale conosco" eletrônico, bastou uma ligação com voz firme e o caso foi logo resolvido
- sites de livros como da Cultura e da Cosac Naify têm sido uma bênção! descontos, bom atendimento, rapidez na entrega - adoro!
- a maneira como é feita a entrega faz diferença! recebi produtos da Granado em vidro, vindos do Rio de Janeiro perfeitamente embalados; o pessoal da Meu Móvel de Madeira impressiona - as embalagens são perfeitas (e os móveis, lindos!)
- confira seu extrato do cartão de crédito ou de débito no dia seguinte ao da compra, só para ter certeza de que cobraram/dividiram o valor correto direitinho
- se não receber sua confirmação de pagamento por email enviado pelo site, não tenha pudores de uns dois dias depois entrar em contato para saber mais a respeito (eu sou das chatas que querem rastrear pedido, claro)
- atente para as formas de devolução de produto - às vezes, é por coleta no seu endereço, mas muitas vezes você precisa levar até uma agência do correio (não qualquer uma, tem que estar habilitada para o serviço), junto com uma autorização que a loja/site deve enviar para seu email. a autorização vem com um código dos Correios, designando o serviço (sedex, PAC). imprima a autorização, leve o produto embalado na caixa e em papel pardo e despache na agência autorizada.

Eu recomendo esse tipo de compra quando se está ocupado demais com trabalho ou quando a época é desfavorável para ir a lojas e shoppings (como Natal e outras datas comemorativas). Ou quando você precisa de algo, e bate aquela preguiça de enfrentar um calor estenuante, como tem feito nos últimos dias.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Crescer, o necessário adeus

Hoje li um texto bonito da Revista Bula, no Facebook. Falava de como é necessário dizer adeus a coisas, situações e pessoas para poder crescer. Por isso perdemos o primeiro dente, as meninas menstruam, os meninos ganham barba, nascem os desejos, as doenças vêm e vão - as mudanças vão compondo uma valsa de adeuses para que a gente debute, cresça.
Pensei logo na necessidade de deixar as cascas para trás, e tive de fazer um desenho do pinto abandonando o ovo e se mandando. E me lembrei da mariposa desesperada, não a apaixonada de Guadalupe, mas a que me visitou na janela do hotel em Joanópolis, enquanto eu tomava banho. Ela também deixou uma casca para trás antes de se debater contra o vidro, em busca da luz do banheiro. É, nem sempre somente deixar a casca garante a sabedoria...
Eu suspeito que, ainda por cima, crescer de fato tem a ver com alguma dor. Perder dente dói, menstruar dói, desejar dói, se apaixonar dói. Ir embora, ver partir. Um dia, ouvi o parceiro de então dizer que talvez estivesse na hora de ele crescer - houve uma faísca de alumbramento, mas acho que não a atitude, uma pena. O que quero dizer é que, imagino eu, ao desejo de deixar a casca se siga o romper a casca, deixá-la, mas também a necessária consciência da não perenidade, do luto em si. Se não for assim (ah, as leis da natureza, da vida, que cada vez mais vou aprendendo a respeitar!), vamos seguir acreditando que ainda estamos dentro do ovo, protegidos de toda dor. E sem um quinhão de dor, por contraditório e odioso que pareça, não avançamos. Talvez no dia a dia sim, um amanhecer após outro, mas não no processo de autoconhecimento, não no caminho do que nos faz essencialmente felizes.
Eu tenho percebido mais as trocas de casca nos últimos tempos. Tem hora que sinto a alma pesar mais, até ficar insuportável. E creio que é nesse momento que vou parindo, dando à luz eu mesma, só que diferente a cada vez. Pode ser a alma crescendo, querendo mais espaço, dentro de mim, dentro do mundo. Me dizendo: "aqui não fico mais! e então? vens?".
O que posso dizer? Só me resta seguir com ela.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Brigadeiro de damasco com farofa de nozes

A receita do Figos e Funghis é com farofa de pistache, mas não achei. E queria fazer HOJE.
Ando numa larica danada, com correria de trabalho e ansiedade pelo novo. Mas fazendo força pra treinar, pelo menos alguns dias. Portanto...


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Elogia-te a ti mesmo

Sem subversões da inscrição do templo de Delfos: digamos que é um "complemento". Para conhecer-se a si mesmo, há que se amar, há que se elogiar também, ou o autoconhecimento pode aprisionar em autocrítica desmesurada.
Acabo de ver um vídeo lindo, compartilhado pela Simone Adami no FB. Chamaram-no "Validação", porque mostra um sujeito que valida cartões em um estacionamento e graciosamente distribui elogios a desconhecidos. Ele vira um fenômeno, por conseguir espalhar a felicidade com seus elogios. Mas não consegue arrancar um sorriso de uma moça por quem se apaixona (...), e acaba ficando infeliz.
Por sorte (dele e nossa), isso não dura muito tempo, e ele logo reencontra sua vocação, agora na fotografia. Consegue tirar dos fotografados um sorriso genuíno, do fundo da alma, com seus elogios. Bem, não vou contar o resto, pois o vídeo vale 15 minutos de pausa num dia estressante (no meu caso, salvou o dia, iniciado às 6h com dois helicópteros sobrevoando o prédio por uns 40 minutos, seguidos do barulho habitualmente infernal da obra nos fundos - ai, Nossa Senhora da Achiropita do Perpétuo Socorro aos Locatários, rogai por mim, hoje e sempre, amém!).

Chorei com o vídeo, lógico. A esperança, a solidariedade e os elogios via de regra me fazem chorar. Mas veio desse vídeo outra lição (quantas! às vezes acho que não darei conta!), a de como ansiamos por ser "validados" pelos outros. Queremos que alguém nos diga que somos válidos, que temos valor. Claro que um elogio é capaz de fortalecer, dar confiança, fazer seguir em frente. A falta de reconhecimento tolhe, cerceia talentos e afetos. O rapaz busca o sorriso da moça, que não vem, e ele se quebra. Mas algo dentro dele - um autorreconhecimento, um autoelogio, mesmo que inconsciente - ressurge e o faz prosseguir. Só pode estar dentro dele. Ele se surpreende quando ouve o primeiro elogio da sua vida - mas eu desconfio de que seja só um eco da sua própria voz interior. Só se fez ouvir porque ele não deu ouvidos a outras vozes lamuriosas, derrotistas.
Ah, quanto a aprender!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Fraturas e ternuras expostas

Já comentei lá no Ser o que soa que ando dando ouvidos a uma vozinha imperiosa que não me deixa enquanto não paro 5 minutos para fazer um haikai ou um desenho. Estou nessa agora.
Hoje foi a vez da Fênix. Estava com coceira de cor, muito laranja, vermelho, fogo, flamejar. Desde uns dias, para falar a verdade. E hoje tive que parar e desenhar, lá do meu jeito, sem grandes pretensões, mas satisfeita com o resultado - era isso que estava dentro de mim, como a menina na corda bamba, como a menina de mãos abertas diante de um marzão de possibilidades. Tinha que ser também com o giz pastel oleoso que trouxe de Paris e mal usei.
E tenho curtido essa história do caderno fotografado sobre o teclado; acabou constituindo uma série de desenhos que mostram bem o contexto do siricotico em pleno horário de trabalho. Mas a ideia é que não sejam desenhos demorados, elaborados, em busca de uma técnica que nem tenho. Só pura inspiração, registro, expressão imediata. Pronto.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Sopão de tomate picante


Voltei à cozinha. Devagar. Num dia, cozinhei pra um amigo - não foi o meu melhor risoto, mas ficou bonzinho (nozes e queijo de cabra; a musse de chocolate com morangos frescos compensou). No outro, pasta com shimeji pra mim. Bom. Voltando.
Outro dia, cansada dos restaurantes do entorno, resolvi fazer algo rápido com o que tinha comprado no hortifrúti. Uma bandeja de legumes (brócolis, couve-flor, cenoura, abobrinha, mandioquinha, alho poró) para sopa, justamente, se misturou a uma lata de tomate em cubos, um tiquinho de vinho do Porto, sal, pimenta, canela e salsinha. Simples assim. E ficou bem bom!

Vida funcional

Por caminhos que a gente nem entende à primeira vista, acaba optando por coisas de mesma natureza, que têm a ver com nossa vida, nosso jeito, naquele momento.
Eu ando numa fase "funcional". Senti necessidade de trocar meu treino de musculação comum (que não curto mesmo, só faço porque é necessário, e olhe lá) por um funcional. Alguma semelhança com pilates, mas mais incorporado ao dia a dia, melhorando a performance corporal em atividades comuns (essa é, pelo menos, a promessa geral). Achei mais interessante usar elásticos, faixas, bola, o peso do corpo do que os chatíssimos e disputados aparelhos, até porque boa parte desse treino pode ser feito fora da academia, com as adaptações necessárias. 
Aí uma amiga me mandou a programação de um curso que achei muito bacana: culinária funcional harmonizada com chás. Me identifiquei na hora, até porque já faz um tempo me interesso pelas funções de alguns alimentos na melhora da saúde. 

Tudo isso me fez pensar que agora quero uma vida mais funcional. Nem sei se o termo se aplica, mas penso que querer viver com menos estresse, menos consumo e até menos comodidade (hoje pra mim quase sinônimo de comodismo), mais perto de uma área verde justifica a apropriação. E aí a tal voz interior que anda dando palpite em tudo até cantarolou pra mim o que me parece ser a música-tema de uma vida funcional: "Só quero saber do que pode dar certo/Não tenho tempo a perder". Poderia ser "Tocando em frente", do Renato Teixeira? Também! Um compacto duplo, por que não? Uma energia diferente para cada momento, porque não somos os mesmos o tempo todo (sorry, Belchior).

O aprendizado do cristal

Naquela inútil febre de Black Friday, em meio a gente pra lá e pra cá no shopping, resolvi de repente entrar numa loja - não, eu não estava acometida pela febre consumista, nem tampouco a tal loja estava realizando descontos de Black Friday. Nem sei por que tive o impulso de entrar, quase no momento de ir embora.
Talvez na hora tenha me lembrado de que queria há tempos comprar um vaso para colocar flores - talvez tenha querido comprar flores naquela semana, mas me lembrei de que não tinha o tal vaso. Acho que foi isso. Bem, de repente me vi diante de alguns lindos vasos de cristal da Bohemia. Coisa de 180 a 250 reais cada um. Pensei logo: não vai rolar. Aí me deparei com um único sem preço (o da foto) - elegante, longo sem ser magrela, com uma linda base art déco.
Pedi ao vendedor, sem mais, que conferisse o preço para mim. Enquanto isso, encontrei um único vaso de vidro ao lado. Interessante, de linhas retas, bem mais grosseiro, mas OK. Oitenta reais. Não era barato, mas era mais acessível. Pensei: bom, acho que vai ser um de vidro mesmo.
Já estava com o vasão de vidro na mão quando uma outra vendedora voltou com o de cristal. "Olha, acho que o preço está errado..." Perguntei quanto era. Oitenta reais. Esperei um pouco para ver se a moça ia querer se certificar, provar até o fim que o produto valia mais (como se fosse preciso!). Uma vez que não houve grande resistência (só algum desconcerto), tomei o vaso das suas mãos: "Vou levar este".
Em casa, fiquei admirando as linhas finíssimas do cristal boêmio. Delicado, lindo. Comprei flores, por fim, e fiquei feliz. E percebi aí um ensinamento valioso em pleno dia global de consumismo febril: podemos até nos contentar com vidro, mas a vida às vezes nos oferece cristal.
Neste momento (e provavelmente doravante), o cristal me cai muito bem.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Das premências

Outro dia, acordei angustiada - precisava cortar os cabelos. Urgentemente. Disso dependia o final de um ciclo. Sentia que precisava mostrar o rosto, dar a cara pra bater, romper com um modelo no qual não me reconheço mais. Liguei na mesma hora para o salão, reservei o horário e dei o aval ao meu cabeleireiro há mais de 15 anos: muda tudo, manda bala. Depois de um breve choque (não estarão muito curtos?), o reconhecimento de mim mesma, o alívio. Voltei. 
Tenho aprendido a respeitar as premências. Mudar de casa, colocar ponto-final numa situação, verbalizar, poder dizer "acabou" com todas as letras, em voz alta. Esse modo de vida, esse comportamento, o que se tornou uma relação, esse lugar. Perceber que, como num texto, só se conduz a narrativa deixando algo atrás de si com clareza, mudando de parágrafo, e para isso é preciso sinalizar a passagem com um ponto-final, sem dúvidas quanto ao que deve ser feito, ainda que restem todas as dúvidas quanto ao que será. 
Gil canta pra mim (e como pensar que ele, logo ele, poderia estar errado?): "Alguma dor? Talvez sim/Que a luz nasce na escuridão". Puxa, cada vez mais tenho crido nisso, nessa aurora que vem vindo, implacável e linda. E para recebê-la também tenho que estar a contento: linda e renovada, de cabelos à la Era do Jazz e batom cereja. 

domingo, 24 de novembro de 2013

Estrada eu sou ou De mãos abertas

Confesso: meu novo processo de mudança (interna, física, espacial) me deixa com um frio na barriga. Olho já com nostalgia para meu quarto, minha casa, minhas coisas, minhas ruas. São quase 13 anos de histórias aqui. Lembro como tudo já foi - mais non, je ne regrette rien. Porque não lamento (o que não quer dizer que não sofra, que não me arrependa - mas acho que integrei as experiências, boas e más) é que olho para o que poderá/deverá ser, e já consigo me imaginar em outro espaço, tendo de conquistar tudo de novo, o que não quer dizer começar exatamente do zero. Outro bairro, outro trabalho, outra rotina, outro amor rodopiam à minha volta, ainda como imagens, mas por isso mesmo já tão próximos da realização - vejo o novo dobrando a esquina, mas agora espero que também chegue, não saio correndo até ele. Caminho em sua direção, e ele vem até mim. Naturalmente.
Passei a fase do medo de uma vida diferente, do medo da solidão. Redescubro como é boa minha companhia. E agora passo a querer simplesmente o melhor para mim, não mais arremedos, improvisos, "o que tiver". O melhor para mim é... o mais simples. De ótima qualidade, mas sem tantos desvios, tantos adereços. Essencial e colorido. Porque não faço o meu caminho: sou o meu caminho.
E enquanto escrevia este post, vi pelo FB que o filme Eu maior, de Fernando e Paulo Schultz, estava disponível no YouTube. Parei de escrever para assistir. Emocionante! Quantas pessoas admiráveis falando com simplicidade sobre o ser feliz, sobre o que isso significa para cada uma delas. Quantas visões diferentes, portanto. Mas com uma coerência acerca da originalidade individual, do que é demandado em cada momento, de que é preciso saber para qual problema se busca uma resposta, da fluidez da vida e do que vamos nos tornando (pois não mudar, como diz Mário Sérgio Cortella, é tacanhice, não coerência). Gosto da ideia de que mais importante que a dor para engendrar mudanças é a crise. Gosto de aprender que a emoção é rápida como um raio, e que o resto são as memórias. Que é à memória da dor (necessária para viver o luto) que nos apegamos, que é preciso abrir as mãos, deixar ir a dor e todo o resto, para que nelas caiba o mundo.
Cá estou, pois, de mãos abertas.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Antes e depois - em looping



Música-tema: On my own, Nikka Costa


Não sei se Nikka Costa era uma dessas crianças cujo talento foi exploradíssimo pelos parentes, mas essa canção é uma das mais pungentemente interpretadas de todos os tempos.
E quem já não se perguntou, e passa a vida toda perguntando, quem é, se se enquadra? Pois.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Umbigada

Acho uma graça o batuque de umbigada - divertido, sensual, tudo de bom. E haja energia para dar aqueles pulos ao mesmo tempo que o parceiro de dança para, literalmente, dar uma umbigada. Aliás, quando se procura a palavra umbigo no Aulete, o exemplo é uma cena de Jubiabá, de Jorge Amado, que descreve a umbigada: "...os pés batiam no chão, os umbigos batiam nos umbigos (...) estavam todos embriagados, uns de cachaça, outros de música." 
O umbigo simboliza o centro - na Antiguidade, do mundo; hoje, do indivíduo. Nos Cantares de Salomão, parece que o umbigo até substituiu textualmente as partes pudendas femininas na função de cálice de delícias. A palavra omphalo (umbigo em grego) refere-se nada mais, nada menos que ao oráculo de Delfos. Coincidência? Nunca.
Olhar pro próprio umbigo pode soar a egoísmo, individualismo extremo, mas às vezes é o oráculo mais confiável que temos. Debruçar-se sobre si (e isso me faz lembrar da imagem clássica de Narciso, mirando-se no espelho de um lago, o extremo indesejável) é a melhor forma de obter respostas. Nesse momento, não são os outros que têm importância, o que querem, o que vão pensar, mas o que queremos, o que pensamos. Para inclusive sermos melhores também para os outros.
Tenho feito muito mais esse exercício umbilical, especialmente quando me pego não querendo fazer algo que a mim interessa por causa (supostamente) de outrem. Incrível, né? Logo eu, que sou tão independente, despojada e tal. Mas acontece. Por exemplo, querer uma cadeira de trabalho melhor: um desejo-necessidade seguido de culpa (???). A imagem lá de dentro responde: ei, tá louca? É para você, é o que você quer, ou Tal coisa (a cadeira velha) não te interessa mais, é a sua vida (a sua coluna) que importa. Vem lá a resposta-chacoalhão de dentro do meu umbigo, do meu íntimo, do oco do meu mundo.
Aí compro a cadeira nova, e volto a respirar, ufa. Não pelo umbigo - mas essa cicatriz ancestral não me deixa esquecer da relação eterna entre o que há dentro e fora de mim, e que de vez em quando é preciso retornar à completa escuridão para ver mais claro.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Novos percursos, novos recursos

Creio que meu trauma com corridas veio do colégio, quando tínhamos que fazer um percurso na pista de ciclismo à guisa de avaliação bimestral. Talvez antes ainda, da época do ginásio. Sempre corri mal, porque respirava mal, pela boca, e quase morria do coração no final da "prova".
Em tempos bem recentes, me peguei correndo, e curtindo correr. Comecei devagarinho. Percebi que os tênis machucavam o calcanhar. Comprei um par próprio para corredores iniciantes. Agora parece que estou flutuando. E volto cheia de serotonina, dopamina, endorfina. Mais feliz e mais bonita, além de mais saudável, é claro.
O mais legal é que essa mudança de "gosto" parece ilustrar uma mudança de paradigma - de alguns, pelo menos - que tenho experimentado. E isso porque não faço a linha "não conheço, portanto não gosto". Acho que tem mais a ver com me descobrir capaz de fazer determinadas coisas, embora, claro, ninguém seja obrigado a ser capaz de tudo, peloamor. Correr é o ápice do saber respirar pra mim - e conseguir fazê-lo é um grande trunfo. Significa que estou sabendo respirar=sabendo pensar=sabendo sentir=sabendo escolher.
Essa apropriação de capacidades e de escolhas e de fazer o que sempre quis vale também para as atividades criativas, para os projetos de vida todos. Descobri coisas novas que faço bem porque faço com amor (bordar, pintar, dançar, cozinhar) e redescobri coisas que sempre foram importantes, mas tinham ficado de lado (viajar, escrever, me relacionar). E assim eu até me emociono ao olhar para meus tênis novos, como se eles fossem uma espécie de laurel por tantas transformações.

No balanço das horas tudo pode mudar

Provavelmente já tive outros momentos assim, de passar por muita coisa, por sentimentos diferentes e até díspares em um curto espaço de tempo. A vida é desse jeito, acredito que pra maioria das pessoas. Mas acho que nunca passei por tantas coisas com tamanha profundidade, observando mesmo o que cada uma quer dizer, na medida do possível procurando enxergar em meio ao riso e ao choro. O importante é que emoções eu vivi? Taí, o Rei deu uma dentro.
Ri, chorei, neguei, cansei, discuti, apaziguei, deixei pra lá, argumentei, acarinhei, chorei de novo, sofri muito, fiquei cara a cara com o abismo, vivi o luto, larguei mão. Veio uma "louca tempestade", como cantaria Ana Carolina, uma chuva diluviana como a de Guantanamera, para lavar e levar tudo e só deixar vivo o que fosse novo, pois o velho não seria capaz de subir ao topo das árvores. Depois, a calmaria.
E do alto das árvores, com outra perspectiva e à medida que a água vai baixando, tenho voltado a ver aquilo que me é caro, e a pensar por que razão ficou esquecido num canto. Agarrada a uma árvore, uma viagem; enroscado num galho mais à frente, um projeto de livro; flutuando na água, o que entendo por relacionamento. Dali vejo tudo, e quando desço vou catando o que é meu. Apesar da aparência de destroço, para tudo há jeito - e a viagem volta a tomar forma, o projeto de livro deslancha, o desenho do amor é de uma clareza desconcertante. Há pouco, tudo vagava no vórtice de águas furiosas e turvas; agora tudo retoma seu lugar. Todo mundo no fundo sabe, mas essa verdade ficou célebre entre nós com Lulu Santos: tudo muda, o tempo todo.
Mesmo sabendo aonde quero chegar, parece que estou aprendendo a deixar o barco correr de vez em quando, sem ter que empregar força, seguindo no balanço das horas e das águas. Aí sim, Fagner, é bom ser um peixe!

terça-feira, 5 de novembro de 2013

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Da série "Milagres cotidianos" III


Não resisti!

Coisa de mulherzinha ou Quando a alma grita

Engraçadas essas coisas da alma, né? Tem coisa que você sempre soube, que sabia que estava lá, meio oculta na sombra, mas ali ficou durante anos e anos. E muitas vezes é preciso ajuda, uma lanterna alheia para iluminar a coisa "ensombrada" (vem daí a palavra "assombrada", sem nenhum acaso).
Algo que tenho trazido à luz, que estava louco pra sair do escuro, era um lado mais feminino da alma. Além de eu nunca ter tido uma educação de "prendas" (algo que, de qualquer modo, já não era tão comum entre as meninas da minha geração), desde cedo tive minha sensibilidade e minha criatividade cerceadas pela figura paterna. Para me adequar/sobreviver, sempre mostrei meu lado mais forte, combativo - que é ótimo, que me ajudou a ir mais longe do que talvez fosse de outra forma. Mas que não sou eu inteira.
Aí, de uns tempos para cá, a alma começou a fazer barulho. Muito barulho. A mandar mensagens misteriosas (lembrei de O mundo de Sofia!) que me faziam ter vontade, de uma hora para outra, de dançar. Eu, que nunca fiz balé e afins. Algo que nunca desejei? Não - sempre achei lindíssimo, sempre me pegou pelo ventre, não o balé, mas danças mais terra a terra como o flamenco. E de repente fui fazer uma aula, pensando comigo mesma: se não levar jeito, tudo bem, desisto. Afinal, levo jeito? Na verdade, não me preocupo mais com isso, nem penso em ser bailaora, mas AMO quando consigo olhar só para dentro de mim, quando a imagem no espelho vai desaparecendo, tudo ao redor vai se esvaindo e só ouço os sons dos tacones e sinto os movimentos dos meus braços, pernas, cintura.
A alma, porém, continuou seu ruído: ela queria mais. E lá fui eu fazer sumiê - uma busca até então inconsciente da ancestralidade, talvez a parte mais yin dessa minha ancestralidade, já que a outra parte era tão presente e tão afirmativa, yang mesmo. Descobri/entendi de onde vinha um tipo de comportamento, encontrei uma atividade que me obrigava a respirar, a esvaziar a mente, a ficar completamente presente. Assumi minha habilidade-sem-técnica manual, artística.
Alguns dias depois, outra mensagem misteriosa: quero bordar! Fui ao armarinho, como já contei aqui, e, munida de meadas e agulhas, me pus a inventar coisas, ainda sem nenhuma técnica. Um ponto de cada vez, e as imagens foram se formando. Para meu espanto, ouvi dizer que estava bonito. Outra atividade que me colocou em contato comigo mesma, mas que agora trazia à tona minha criatividade. Claro que é angustiante que o flamboyant demore tanto a ficar pronto, mas criar não é algo que esvazia: parece um olho d'água rompendo o solo seco e se transformando em um fio, um rio, um mar. Lavando, nutrindo, comunicando.
Não por acaso, isso foi aparecendo quando comecei a dar mais valor à minha intuição, a perceber o que a vida estava me dizendo. Coisa de mulherzinha. E quanto ainda há a perceber, entender, mais que "aprender". Quanto mais sei sobre mim, sobre meus tesouros enterrados, mais sei sobre o outro, sobre as "civilizações" que são diferentes da minha. Acho que agora começo a entender, a ouvir o grito da minha alma, e da alma do outro protestando quando uso a minha medida para avaliar os seus valores. Já não acredito mais em alteridade, que seja possível se colocar no lugar do outro, mas acredito cada vez mais no encontro, que, quando desejado e completo, é algo maravilhoso.

domingo, 20 de outubro de 2013

Receba as flores que eu lhe dou

Ontem foi a comemoração de 80 anos dos pais da minha grande amiga Karen. A festa aconteceu num clube antigo na Penha, entre amigos e familiares, tudo no maior capricho. Flores nas mesas, sapatilhas para a mulherada cair na pista, acessórios para compor o look dançante, bom serviço de bufê. E os dois, dona Enide e seu Ney, lindos, amados, alegres, comoventes.
Não bastasse a emoção de participar de um momento tão especial e perceber que o tempo escorre mesmo pelas mãos (afinal, eu os conheço há mais de 20 anos), vi ali, mais uma vez, o milagre do amor e da amizade, que acontece apesar da convivência, da rotina, das idiossincrasias de cada um. Apesar dos filhos e netos e amigos e desafetos, apesar dos dissabores e obrigações, apesar do próprio tempo. Acima das dúvidas e por isso mesmo sob um céu de dádivas. Cada um aceitando o outro também com seus defeitos e as flores que traz consigo.
Particularmente, acho cada vez mais difícil que um relacionamento dure tanto tempo, sobretudo em uma época tão volátil quanto a nossa, de coisas mais e mais virtuais e menos palpáveis. Nem Vinicius de Moraes, um revolucionário em seu tempo ao desejar que o amor fosse eterno enquanto durasse, seria capaz de imaginar a que ponto chegamos - talvez um ponto final seguido de vírgula...
Mas eu concordo com o poetinha (que faria aniversário, vivo estivesse, por esses dias) - que enquanto valer a pena o amor seja vivido intensamente, eternamente, com todas as fichas na banca, com todos os riscos (menos o de se perder de si). Pode ser que não sobreviva à própria vida, mas quem sabe? Dona Enide e seu Ney estão aí para mostrar que também é possível valer a pena por muitos e muitos anos.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O grande encontro

Encontrar-me comigo mesma. Um encontro dessa importância só podia ser num lugar muito especial, no meio das montanhas da serra da Mantiqueira. Graças à indicação de diferentes (e igualmente queridos) amigos, conheci o hotel Ponto de Luz, em Joanópolis.
Imagine chegar a um lugar onde nos esperam com sopa de abóbora à mesa e perguntam se queremos uma bolsa de água quente para aquecer um pouco mais a cama... Dormir ao som da cachoeira e acordar com pássaros cantando (e não terríveis pombas arrulhantes). Receber a cada dia ervas frescas para um banho purificador e também um suco desintoxicante (três vezes ao dia). Sentir cheiros deliciosos estrategicamente espalhados em cada canto, mas também curtir os odores mais campestres ao redor - não só o maravilhoso de mato molhado, mas até o do que as vacas obraram... Receber cuidados de fato, em um ambiente com tantos detalhes preciosos. Ver a névoa concentrada na mata subindo até se desfazer no céu azul. Poder caminhar em meio ao verde, fazer meditação conduzida por terapeutas competentes e delicados. Não é assim uma hospedagem econômica, mas uma viagem para o interior de si mesmo certamente não tem preço.
Cheguei machucada, carregando uma pesada bagagem de medos. Não digo que voltei novinha em folha, mas voltei inteira, íntegra, presente, com um alumbramento de quem sou eu. De que sempre tive coragem, mesmo que mal dirigida. De que meus sonhos eu é que devo seguir, de que aos meus caminhos eu é que devo dar curso. Voltei a respirar, vou aprendendo a usar toda a força dos meus pulmões. Joguei mágoas fora junto com as ervas do banho. Conversei aqui e ali com os dois outros únicos hóspedes, cada um com suas feridas, a gente se ajudando nos eventuais encontros, um sorriso (mesmo ainda não tão alegre, mas cada vez mais animado), um olhar de compreensão, uma história assemelhada. Bom o compartilhar em meio aos encontros e embates consigo.
E o contato com a natureza me faz lembrar como são sábios os outros animais, que dançam ao ritmo dela em vez de lhe fazer oposição, tão diferentemente de nós, que acreditamos controlar tudo, a natureza, a vida, os outros. Ao menos, estou procurando internalizar a ideia de que tudo pode ser bem mais simples, menos sofrido, mais natural, a própria nova vida que quero ter.

Uma janela para o futuro logo ali


domingo, 13 de outubro de 2013

Hora da faxina ou Prólogo/oração ao novo

Nesta época, costumo ir atrás da agenda do próximo ano. Procuro escolher uma que seja bonita mas minimamente discreta, prática e portátil. Com a agenda nova e em branco nas mãos, fico toda animada em fazer projetos, avançar um pouco mais na direção dos sonhos, pensar em algo novo a aprender/conhecer. Mas tenho pudores em começar a usá-la logo, já que o ano ainda não acabou e também há um balanço a ser feito, normalmente em dezembro.
Este ano resolvi fazer diferente. Comprei uma agenda maior, que lembra um livro antigo. Ela se inicia em agosto deste ano, e segue até dezembro do ano que quem. Resolvi já começar a usá-la, encostar a atual, assumir já o novo começo, o que me provoca desde agora um vital frio na barriga. Significa que já comecei meu balanço anual, também de outro jeito - um balanço não de realizações, mas das transformações. Sem arrependimentos, sem culpar o outro nem a mim. Buscando internalizar que a permanência é uma ilusão, como diz o artigo de Eugênio Mussak na Vida Simples. Assumindo o fim das etapas, sem lamentar toda energia gasta com elas - pois, afinal de contas, tudo foi porque valiam a pena. Já não valem mais, não na forma presente. Quem sabe o que será o amanhã? Mas não se pode deixar de caminhar por não saber o que há atrás da curva.
Faria tudo de novo? Nem tudo, mas quase, com o grande aprendizado de não me desgarrar de mim mesma mesmo fazendo o meu melhor pelo outro. E não deixar de fazer o meu melhor, talvez agora com o desconfiômetro ligado para saber a hora de parar. Não mais pelo temor de infância de ser inconveniente (apesar de toda minha extravagância aparente), mas para não usar desnecessariamente minha energia vital.
Certezas? De que alimentar expectativas acerca dos outros (de que nos deem o que não têm) é outra ilusão, mas que posso contar com os verdadeiros amigos e sobretudo comigo mesma. De que tudo será melhor do que tem sido, com as lições sendo absorvidas, trazendo mais cuidado e consciência (= iluminação). De quebra, e de preferência, em outro lugar, que me tire da zona de conforto que já me incomoda há tempos.
Assim, que venha o novo.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

"Gota d'água" com Simone e Milton Nascimento

Não sou muito fã de Simone, mas essa gravação de Gota d'água é insuperável!


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Indignação mais que necessária

Pois é, cansei de ser muito cordata, compreensiva, low profile e até meio blasée com relação à inversão da realidade que algumas pessoas praticam. Cansei de pensar "é mesmo, essa pessoa tem problemas, coitada, precisa de ajuda especializada". Porque cara de pau não é doença, é falha de caráter.
Não estou falando de cara de pau no sentido de ousadia, das pessoas que se arriscam mesmo sabendo que podem levar um não. Estou me referindo a gente que explora os outros e têm a pachorra de se fazer de vítima, de reclamar dos explorados. Ainda mais quando faz isso pelas costas, usando as redes sociais porque sabe que o suposto "vilão" não frequenta o ciberespaço. Porque é uma senhora de 70 anos que não domina a linguagem da internet, que mal sabe se defender do abuso alheio e acaba se retirando de sua própria casa para não ouvir um recorrente "não enche o saco".
Os caras de pau a que me refiro não tinham onde ficar pois perderam a casa por motivos que nem convém mencionar, e recorreram a essa senhora, mãe de um deles, e transformaram a casa num lixão, sem metáforas. Viveram felizes ali, no meio do lixo, até que a dona da casa precisou voltar ao lar.
Diante do inferno onde agora se encontra, ela ainda consegue reclamar e pedir que os dois intrusos limpem a sujeira dos dois cães que ainda mantêm ali, que liberem a passagem, que deem alguma ordem à cozinha. E eles têm a coragem de publicar nas redes sociais que não aguentam mais viver com essa senhora, que é resmungona, amarga e "não quer ser ajudada". Oi? Perdi alguma coisa? Pelo jeito, o filme a que eu vinha assistindo era outro!
Este blog vinha falando mais de coisas legais, esperançosas e tal. Mas não dou conta do tamanho da minha indignação, diante da tremenda cara de pau desses dois. Se um pouco de dignidade houvesse, em vez dessa cara de pau toda, já teriam arrumado as trouxinhas e ido cuidar da vida, em vez de passar o dia no FB ou sonhando com grandeza, ou achando que todo mundo têm obrigação de ajudá-los, ou esperando um milagre, que eles acreditam merecer pois são muito legais e fofos.
De repente, virei fã do FB - mesmo que promova a voracidade, a repetição de informações sem digestão, ele também ajuda a desmascarar os santarrões!



quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Ao que nasce e nascerá

Às vezes acho que sou otimista, ou pelo menos uma pessoa esperançosa. Vejo milagres e sinais no cotidiano. Ainda acredito que existe gente do bem, mesmo que muita coisa me leve a crer no contrário. Boas notícias de todos os tamanhos me alegram. E gosto de planejar, de projetar, de plantar. No hoje, no agora, já iniciando mudanças, sonhos e desejos, na forma de desenhos, das minhas listinhas pinceladas de TOC, de ideias rascunhadas em vários pequenos cadernos (outra mania).
E descobri que o bordado me empurra para a realização de forma implacável. Impossível não querer cobrir o campo de flores, fazer vicejar o flamboyant e provocar os murmúrios do riacho (que eu quereria do tamanho do São Francisco se o tamanho do linho permitisse). Triste demais seria deixar o tecido para sempre desnudo, descolorido. Nesse desejo de transbordar beleza enquanto a linha persegue alegremente a agulha é que reside a mágica da criatividade: parece que, à medida que se cria, um manancial enorme vai ocupando os espaços internos, incontinente. E só resta deixar que ele extravase, fecundando tudo por onde passa.
Como a vida, que não deveria nunca ser contida.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Da série "Milagres cotidianos" II

A enfermeira, meio sem graça, pergunta se está doendo. Tira meu sangue (acho que treme um pouco), com o qual vai enchendo vários tubos. "É que tive que mexer um pouco... Mas não vai ficar hematoma, não" (está mentindo). Respondo que só senti a picada da agulha, um ardor, mas na verdade nem estou olhando. Tão vampirizada me sinto que já havia até tirado o celular da bolsa para ver meus e-mails. Só para ver se rolava algum milagre virtual, uma notícia que mudaria o dia. "Hoje só quero que o dia termine bem", cantarola Luciana Mello na minha mente.
E lá está. Um amigo havia me indicado para um trabalho, e há alguém, que nem sequer conheço, que acredita que posso fazer diferença. Na verdade, eu também acredito. Só havia me esquecido disso.

domingo, 1 de setembro de 2013

arteantídoto

É surpreendente como podemos deixar de fazer algo de que gostamos sem nem perceber. Ainda mais no que se refere à arte, cuja apreciação serve de antídoto a tanta coisa nefasta.
Foi o caso na última semana. Retomar a apreciação da arte para aliviar o peso na alma.
Por isso vi quase de um só gole os Mestres do Renascimento no CCBB e Lucien Freud no Masp.
A bela exposição dos renascentistas tem algumas obras surpreendentes, como a de Carlo Crivelli - a Madona com o Menino tem movimento e graça inovadores para a época -, além das cores esperadas mas sempre espantosas nas cenas pias com fundo mercantil (as costumeiras cidades e os portos ao fim da perspectiva). Vi um Parmegianino ao vivo, o que me tocou muito, mesmo não sendo uma obra claramente maneirista. E o que mais me chamou a atenção foi a perfeita conservação das obras - quase nada craqueladas, com cores vibrantes e brilhantes. O único porém, de novo, é a iluminação do CCBB que nem sempre favorece os quadros de grandes dimensões num espaço tão exíguo.
No caso de Lucien Freud, reafirmei minha admiração pelo artista alemão, neto do pai da psicanálise. Sobretudo pelas gravuras, que não conhecia. Que meticulosidade! De repente entendi o que me parecia uma deformação dos modelos com intenção crítica - na verdade, um olhar tão próximo que distorce ao mesmo tempo que revela, mesmo efeito de uma grande angular usada a grande distância. Um obstinado atento aos mínimos detalhes. Se alguns dos modelos se queixaram de terem envelhecido ou desbotado nas mãos de Lucien Freud, o fato é que outros parecem muito mais belos na sua essência trazida à tona.
Ter visto beleza quando a alma estava tão anestesiada que a mente não conseguia pensar em nada que não fosse DOR foi, decididamente, como voltar a respirar fundo e devagar de novo, depois de quase me afogar.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Da série "Milagres cotidianos"

No táxi, ansiosa para chegar logo à segunda agência dos correios antes de seguir para outro compromisso. O taxista para na faixa de pedestre (o que já é um milagre) à espera da travessia da mãe e da filha que acabou de sair do colégio. A mãe faz uma cara cômica de indecisão, enquanto a pequena de 8 ou 9 anos vai puxando a mãe pelo braço e com a mão livre faz para o taxista o gesto "do pedestre" (tipo patientez, patientez!) infinitamente.
Me perco olhando para ela, e acho que já estou sorrindo quando ela me vê. Parece até que diminui os passos antes de chegar à outra calçada; olha bem para meus olhos, sorri também e me faz um gesto de OK/afirmativo/curti. Parece que sabe que preciso continuar acreditando, e ela me ajuda a acreditar.

Che non posso più!

Assisti de novo a Noites de Cabíria do Fellini. Acho Giulieta Massina uma fofa, algo entre o clown e a moça ingênua que se acha muito esperta. Me lembra Esperando Godot, de alguma forma, mas não deve ser por acaso, já que Fellini é tão teatral. E a língua italiana ajuda a derreter de vez o coração quando, no momento de maior desespero, enganada pela centésima vez e prostrada no chão, Cabíria pede ao falso noivo que a mate: "Che non posso più!"
E no entanto (aqui diferente de Godot) ela desfila em meio aos músicos e jovens que encontra no caminho, o coração se enchendo novamente de esperança quando uma moça lhe sorri e diz: "Buona sera!"
Essa moça que sorri é um desses anjos que surgem na forma de desconhecidos. Só para dizer: aguenta mais um pouco, as coisas vão melhorar.
Eu acredito nisso. Ancora.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Cazuza na veia

I.
Mas ficou tudo fora de lugar/Café sem açúcar/Dança sem par/Você podia ao menos me contar/Uma história romântica

II.
Eu acredito nas besteiras/Que eu leio no jornal/Eu acredito no meu lado/Português sentimental/ Eu acredito em paixão e moinhos/Lindos!/Mas a minha vida sempre brinca comigo/De porre em porre/Vai me desmentindo/Será que eu sou medieval?/Baby, eu me acho um cara tão atual

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Gordice de final de semana

Bolo de caixinha com cobertura de brigadeiro tradicional (com leite Moça e chocolate dos padres Nestlé). Vinte minutos depois de servir ele já estava assim:

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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